Publicado em 29 de set de 2016 por Tarcio Matos

Estava na internet um dia desses quando vi uma imagem de Angelina Jolie falando sobre seu desejo de interpretar James Bond, não uma Bond girl, mas sim o protagonista da franquia. Entre vários comentários um me chamou a atenção. Era de um homem que dizia “porque tornar um personagem homem uma mulher?” O que me lembrou dos comentários que li na estreia de Star Wars: Despertar da Força e a nova versão de Caça-Fantasmas. Em todos eles existia a pergunta “porque colocar mulheres no lugar de homens?” ou mesmo “porque colocar mulheres como protagonistas?”.

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Em 1991, quando James Cameron apresentou Linda Hamilton como Sarah Connor**, o mundo se fez a mesma pergunta. Veja bem, Sarah Connor não foi a primeira protagonista mulher do cinema, mas uma das primeiras a causar tanto impacto. Por quê? Porque ela fugia dos padrões impostos há tantos anos na indústria do entretenimento. Sarah Connor não era uma pobre moça fraca e indefesa que precisava de um príncipe. Sarah Connor lutava por si mesma e por seu filho.

O mesmo aconteceu quando Ridley Scott apresentou a Tenente Ellen L. Ripley (Sigourney Weaver) em Alien. Ripley (que antes de Sarah Connor já desafiava o estereótipo feminino) estava em perigo, mas existia em si mesma, ou seja, não precisava que um homem viesse lhe salvar em um cavalo branco.

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Com o passar dos anos as mulheres foram gradualmente sendo mais bem representadas. Aos poucos e bem lentamente conseguimos ser apresentadas a personagens que eram mais que uma princesa chorando desesperada esperando que o homem viesse lhe salvar.

Existia (para alguns ainda existe) uma ideia de que filmes com mulheres protagonistas fortes não vendiam, que o público não se interessava em vê-las. A franquia Jogos Vorazes chegou em 2012 para quebrar esse paradigma. Jogos Vorazes: Em Chamas foi o filme mais lucrativo de 2013 na América do Norte, ultrapassando Homem de Ferro 3 (protagonizado por um homem).

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Star Wars já vencia esse estereótipo em 1977 com a Princesa Leia e Padmé Amidala em 1999. Mas foi em 2015 que a saga escancarou as portas para a representatividade com a primeira mulher protagonista. Rey conquistou público e crítica, se tornando uma das figuras mais amadas da saga.

Em 2016 uma mudança de “manto” na Marvel Comics ressaltou esse assunto. Quando anunciado que após os eventos de Guerra Civil II, Tony Stark deixaria de vestir a armadura para que Riri Williams se tornasse IronHeart , a Internet se dividiu. De um lado aqueles que entendiam não só a importância de Riri como heroína, mas como mulher negra representada. Do outro, puristas que acreditam que o mundo deve permanecer igual, sem nenhuma mudança. Para os últimos tenho péssimas notícias: o mundo vai mudar sim e a representação das mulheres vai mudar também. Vai mudar porque deve e precisa.

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Precisamos existir como heroínas, vilãs, anti-heroínas. Precisamos existir como protagonistas. Precisamos ser mais que um enfeite, uma ajudante, uma coadjuvante em todos os lugares. Precisamos ser fortes, independentes, decididas, complexas, errantes, controversas. Precisamos existir para motivos que vão muito além de agradar os olhos. Merecemos ser representadas com dignidade e profundidade. Merecemos ser representadas como algo além do estereótipo porque existimos além do estereótipo.

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O protagonismo não é um favor ou privilégio, é um direito. Passamos anos sendo apenas Bond girls ou mocinhas indefesas, existindo apenas para exaltar a figura do homem. Dar destaque as mulheres é nada mais que um dever, levando em conta forma como nos retrataram durante todos esses anos. Não é uma tarefa fácil, principalmente pela resistência dos puristas em aceitar a mulher como figura central, mas como diria Meredith Grey (de Grey’s Anatomy):

“Não desejamos coisas fáceis. Desejamos coisas grandes, coisas ambiciosas, (quase) fora de alcance.”

obs: pelas imagens ainda percebemos um domínio branco nas personagens. Pois é, ainda temos muito a evoluir.

**Linda já se apresentou como Sarah Connor em 84, no primeiro Exterminador do Futuro, mas nesse filme ela ainda seguia o esteriótipo da mocinha indefesa. Foi só no segundo filme que a personagem se tornou a figura poderosa que conhecemos hoje.

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