Publicado em 28 de jul de 2017 por Artur Batista

“Era uma vez um anjo e um demônio que se apaixonaram. A história não acabou nada bem.”

Acredito que seja compreensível odiar alguém que lhe roubou tudo aquilo que lhe mantinha de pé num mundo cheio de guerra e terror. E quando tudo que lhe mantinha de pé se concentrava em uma pessoa, ver esta morrer já não é mais uma tortura, um desastre ou uma paulada do Universo: é uma sentença definitiva que lhe jogará num eterno abismo de perdição. Já não há propósito, nem esperança. Já não há dor, nem ausência dela. Apenas o nada e sua falta de opções. E é disso que se trata Feita de Fumaça e Osso.

Karou pode ser considerada uma garota comum. Desde que comum seja entendido como cabelos azuis, tatuagens de hamsás e uma família de demônios cujo patriarca coleciona dentes. É. O que você leu. Dentes.

Em seus 17 anos, Karou já passou por coisas que nenhuma garota da sua idade sonharia em passar. Ela é, de certa forma, “filha adotiva” de Brimstone, um demônio – uma quimera, mais exatamente – e mercador de desejos que tem negociantes pelo mundo inteiro. Funciona assim: os negociantes conseguem dentes – às vezes, das formas mais macabras possíveis – levam a Brimstone e ele lhes concede desejos conforme a quantidade, qualidade e tipo de dentes. O trabalho de Karou é levar estes até Brimstone quando os negociantes não podem ir aos aposentos do demônio. Ela busca a mercadoria em qualquer parte do mundo, através do portais que Brimstone criou. E é em um desses portais que o quimera vive e em que Karou praticamente cresceu.

Mas tudo acaba mudando quando, em uma dessas viagens, ela se depara com Akiva: um serafim, cujo povo é inimigo perpétuo dos quimeras. Estranhamente, Akiva não parece ser o tipo de criatura merecedora do ódio de Karou, e a garota acaba se permitindo enxergar o recém-conhecido não com os olhos de um inimigo à espreita, mas com os de uma garota que passa a questionar o que seu coração começa a sentir. E ao perceber isso, a cria de demônios acaba por descobrir que seus sentimentos pelo anjo não são nada recentes.

“Desejava ser o tipo de garota completa em si mesma, que se sente bem com a escuridão, serena. Mas não era. Ela era solitária, e tinha medo da sensação de vazio dentro dela como se aquilo pudesse se expandir… e eliminá-la. Ansiava muito por uma presença ao seu lado, sólida. Sentir as pontas dos dedos de alguém roçando sua nuca, e ouvir uma resposta à sua na escuridão.”

A escrita de Laini Taylor é apaixonante. A narrativa é muito boa, direta e sem enrolações. Os personagens são bem desenvolvidos: suas características dialogam bem com realidade e fantasia, misturando com clareza os traços comuns de uma vida adolescente com os deveres sombrios de um universo sobrenatural . O livro cumpre o que promete, as lacunas abertas são bem preenchidas e o ritmo da história chega a ser quase perfeito, com cada elemento, personagem e cenário respeitando seu devido tempo.

O final tem um misto de emoções que, embora não seja extraordinário, pode vir a causar raiva ou desespero, dependendo do seu nível de paciência (risos). Aquilo que esperei acontecer, aconteceu de uma forma totalmente estranha. Bruta, fatal, paralisante. Mas estranha. Porque você não sabe se sente pena de Karou ou pena de si mesmo por chegar até li e se deparar com algo tão forte.

Feita de Fumaça e Osso faz parte de uma trilogia, publicada no Brasil pela editora Intrínseca.

Em 2012, o The Hollywood Reporter divulgou que a Universal havia comprado os direitos da obra para uma adaptação cinematográfica. A produção ficaria a cargo de Joe Roth, responsável por filmes como Malévola e Alice no País das Maravilhas; a direção ficaria sob os cuidados de Michael Gracey, e o roteiro seria escrito por Stuart Beattie (Piratas do Caribe, G.I. Joe: A Origem de Cobra), que trabalharia em conjunto com a autora do livro. Desde o anúncio, porém, não houve mais notícias sobre o andamento do longa.

“Existe destino mais cruel do que conseguir o que você mais deseja quando já é tarde demais?”

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