Publicado em 25 de jun de 2017 por Leonardo Oliveira

O Dogma 95 foi um movimento cinematográfico lançado através de um manifesto em 13 de março 1995, criado pelos diretores Lars Von Trier e Thomas Vinterberg. Segundo os seus criadores o cinema estava se democratizando, a essência estava sendo perdida, e tinham em seu objetivo principal acabar com essa democratização, através de filmes que seguissem algumas regras impostas por os mesmos. As regras eram:

1. As filmagens devem ser feitas em locais externos. Não podem ser usados acessórios ou cenografia.
2. O som não deve jamais ser produzido separadamente da imagem ou vice-versa.
3. A câmera deve ser usada na mão.
4. O filme deve ser em cores. Não se aceita nenhuma iluminação especial.
5. São proibidos os truques fotográficos e filtros.
6. O filme não deve conter nenhuma ação “superficial”. (Homicídios, Armas, etc. não podem ocorrer).
7. São vetados os deslocamentos temporais ou geográficos. O filme se desenvolve em tempo real.
8. São inaceitáveis os filmes de gênero.
9. O filme deve ser em 35 mm, padrão.
10. O nome do diretor não deve figurar nos créditos.

É fácil notar essas regras em prática, então como fiz no meu texto sobre o expressionismo alemão vou deixar aqui uma amostra, entretanto diferentemente de lá (que foi em imagens), aqui será um trailer do filme Festen ou Festa de Família, que detém o título de primeiro longa do movimento.

Festen lançado em 19 de junho de 1998, dirigido por Thomas Vinterberg.

O filme se passa em 24 horas, e conta a história de uma família que está junta para a comemoração de 60 anos do patriarca da mesma. Porém durante a festa, verdades extremamente incômodas sobre o passado são ditas, e o que era pra ser alegria se torna tensão, tristeza e ódio. É um filme excelente e se você tem pouco tempo ou paciência para entender o movimento, veja apenas esse filme que foi vencedor em Cannes.

 

Uma das características mais interessantes do Dogma 95, é que diretoras tiveram um bom espaço para produzir. Dos dez filmes dinamarqueses do Dogma, quatro foram dirigido por mulheres (E são bons filmes se me permitem dizer). O cinema na sua forma industrial sempre foi muito machista, e o movimento foi um tanto libertador nesse quesito por deixar de lado a questão de gênero.

 Lone Schirfig e Annette K. Olesen, diretoras dos filmes  “Italiano Para Iniciantes” e “Em Suas Mãos” respectivamente.       

Novamente para servir como base indico três filmes do movimento, é importante frisar que segundo um artigo de 2008, existem 338 filmes na lista oficial. Segue as indicações:

“Os Idiotas” de 1998.

Um grupo de pessoas que fingem ter problemas mentais para conseguir regalias, se divertir e incomodar as pessoas, usando como argumento que é preciso deixar aflorar o lado idiota que existe em cada um e expôr a hipocrisia burguesa. A introvertida Karen conhece o grupo por acaso, mas gosta da idéia de não precisar ser “normal”, de não seguir convenções e expectativas, e passa a acompanhar o grupo nos estranhos programas que fazem. Mas será que eles mesmos aceitam as idéias que defendem?

 

“Julien Donkey-Boy” de 1999.

Julien é um jovem esquizofrênico. Ele vive com seu excêntrico pai alemão, sua irmã grávida, seu irmão e sua avó num bairro suburbano de Nova Jersey. Enquanto seu pai dança ao som de Dock Boggs usando uma máscara de gás e seu irmão faz exercícios a fim de tornar-se lutador, Julien vaga pelas ruas ou fala consigo mesmo chamando-se de “King Julien”.

“Mifune” de 1999.

Um homem tem a sua lua de mel interrompida por um telefonema avisando da morte de seu pai, que vivia numa fazenda decadente acompanhado de outro filho. Ao chegar no local ele precisa cuidar do destino do irmão, que tem sérios problemas mentais, e retornar para a nova vida de casado. A solução encontrada foi a contratação de uma empregada. Porém, quem chega para o cargo é uma jovem ex-prostituta, linda e delicada, causadora de uma série de situações tragicômicas, que vão muito além do previsível.

Infelizmente o Dogma 95 “atirou no próprio pé” e traiu o seu próprio manifesto. Sejamos realistas, criar um filme sem qualquer manipulação de luz ou som é complicado, até mesmo para bons diretores. O próprio Thomas Vinterberg admitiu ter utilizado luz não-natural no longa Festa de Família, e além dele Lars Von trier utilizou música no filme Os Idiotas. Não faz muito sentido desobedecer suas próprias regras não é mesmo? Por fim, depois de se perder naquilo que ele mesmo propôs, o movimento teve seu final decretado em 2005. Porém os filmes que um dia que foram na contra mão da indústria do cinema continuam vivos, e não deixa de ser muito interessante vê-los.

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