Publicado em 14 de ago de 2016 por Mayara Armstrong

O título parece óbvio, mas não é tão óbvio assim. Antes de tentar explicar, temos que entender algumas questões sócio culturais básicas. Apenas é possível compreender os fenômenos historicamente, para isso, devemos partir de um ponto e aqui, será tido como referência especificamente o Brasil, sua cultura.

Ao falarmos das Olimpíadas do Rio de 2016, vamos falar da abertura que aconteceu no dia 05/08. A abertura começa com um vídeo mostrando apenas o lado bonito da cidade do Rio de Janeiro, após, são apresentadas danças e músicas. Há uma homenagem ao cartunista Ziraldo, onde o símbolo da paz, desenhado por ele, em 1988, é transformado no símbolo de uma árvore, fazendo um apelo simbólico ao fim do desmatamento e a preservação das matas e das árvores.

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Há, também, uma referência a criação da vida e o desenvolvimento da história do Brasil, como os europeus/portugueses chegaram aqui, fazendo uma “homenagem” aos povos indígenas. Me refiro a homenagem entre aspas pois sabemos que na teoria a história é muito linda e na televisão foi retratada da melhor forma glamourizada possível, pois sabemos que não foi com o “princípio da paz” que a colonização no Brasil aconteceu, muito pelo contrário, desde 1500 que começaram as identificações e exclusões das diferenças, além das hierarquias de raças, poses e poder. Por exemplo, mais para frente são claramente retratadas as pessoas negras, escravas coloniais, trabalhando nas plantações para os europeus/portugueses se alimentarem e afins. Com barulhos de chicotes, mas sem retratarem as humilhações, as torturas, os sangues derramados, as desnutrições, as mortes e afins. Estava tudo bonito na televisão.

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O que mais foi retratado na abertura? Le Parkour, destaque para as cantoras, mulheres, negras, como Ludmilla (Funk/Pop), Elza Soares (Bossa Nova/Samba). Apresentação de Breakdance (estilo de dança de rua criado por afro-americanos e latinos, criada inicialmente como uma manifestação popular e uma alternativa para os jovens não entrarem em gangues de rua), Rap (um estilo de música criado como uma das finalidades sendo a de retratar a violência das favelas, situação política, sexo, drogas, e afins), Maracatu (danças e rituais de crenças africanas). Ou seja, Brasil passando uma imagem do país que é, mas que não se orgulha de ser. Fazendo um resumão do que foi apresentado na abertura, foram os pontos positivos do Brasil, o que o Brasil tem de valor, o melhor da nossa cultura, entre as homenagens teve: 14 bis / Santos Dumont; A poesia A flor e a náusea, de Carlos Drummond de Andrade; Baterias de 12 escolas de samba; Anitta, Caetano Veloso e Gilberto Gil cantaram juntos, Zeca Pagodinho, Marcelo D2 e Jorge Ben Jor também cantaram; Gisele Bündchen desfilou ao som de Daniel Jobim. Temos Regina Casé falando sobre “celebrar as diferenças” em um país que mais discrimina do que inclui.

Foi falado sobre o aquecimento global e as consequências do seu avanço. Aproveitaram para passar uma mensagem ecológica através de uma criança, negra, com roupas prateadas e uma mochila, plantando uma muda de árvore, fazendo uma referência simbólica ao futuro e a esperança, passando uma mensagem de que as crianças são o futuro e que devemos nos preocupar com a natureza, preserva-la. Uma criança negra, representando o futuro… Onde, infelizmente, ainda não há uma educação de qualidade, saneamento básico, muitas expectativas futuras para elas…

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Destaque para Karol Conka e Mc Soffia, cantando a música “Toquem os Tambores”, com uma letra altamente diretiva, fazendo referência ao empoderamento feminino, racismo, padrões socialmente construídos, escravidão e a opressão sofrida pelas pessoas negras.

“Ta vendo esse chão que você pisa, construído por nós, que foram esquecidas (…) Se liga só no empoderamento, respeite nossa luta e nosso movimento. Escute minha voz representando as meninas, todas que são guerreiras coloquem as mãos para cima. Todas somos vencedoras. Toquem então os tambores” – Letra de Toquem os Tambores

A música foi cantada simultaneamente a uma apresentação de capoeira, o que faz referência as temáticas desenvolvidas na música, pois a capoeira foi desenvolvida como forma de proteção, onde os escravos utilizavam o ritmo e os movimentos de suas danças africanas, adaptando como um tipo de luta, ou seja, uma arte marcial disfarçada de dança, representando uma luta contra a violência e a repressão sofrida.

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Antes da Karol Conka e Mc Soffia cantarem na abertura, deram uma entrevista falando sobre como elas veem suas futura apresentações na abertura e o impacto da mesma, e as respostas foram:

“Significa, para mim, que eu vou estar representando todas as crianças negras da periferia que não podem estar falando, eu vou dar voz para elas e vou falar na Olimpíada, então vou estar representando as meninas, as mulheres, as crianças” – Mc Soffia (11 anos)

A gente vai estar representando uma minoria que é maioria no Brasil na verdade, e é importante porque, em primeiro lugar é isso, é a representatividade da periferia, da mulher, da negra, mas não é apenas isso, é em um todo… A empatia, acho que é essa mensagem que temos para passar para todo o evento, a empatia, a paz, e o amor, então será muito gratificante” – Karol Conka

Em uma entrevista mais antiga da cantora, Karol Conka diz que todas suas músicas são sobre auto-estima e retratam suas vivências e experiências de vida:

Na minha infância, eu era discriminada frequentemente. Essa coisa de ‘você não pode fazer isso’. Como uma mulher negra vivendo no gueto, eu pensei, eu preciso ter algo interessante que outros artistas não têm. Não me adaptar a esses preconceitos me deu força e eu resisti”.

E é essa a importância da representatividade. A importância de gritarmos para o mundo que existimos, que temos voz e opinião. A importância de entendermos que o passado passou, mas que muitas pessoas ainda sofrem as consequências desse passado, a visão patriarcal não mudou por completo, ainda não são as mesmas oportunidades oferecidas de forma igualitária para todos e todas. Num pais onde pessoas são privilegiadas por um gênero especifico, por uma condição sexual especifica, por características fenotípicas especificas, uma sociedade que aprendeu desde cedo a discriminar, a representatividade se faz necessária para fazer com que as diferenças sejam enxergadas, aceitas e respeitadas. A luta pela igualdade de direitos é constante. Não podemos nos adaptar a esses preconceitos. Temos que resistir.  

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