Publicado em 07 de jun de 2017 por Artur Batista

Em um mundo literário tão vasto quanto o que temos hoje, ainda é raro encontrar um escritor como David Levithan. O cara não apenas escreve sobre pessoas, mas sobre pessoas reais, personagens reais, em cada página marcada por algo bem mais importante que um conjunto de frases e citações: sentimentos. Sentimentos que nos despertam curiosidade e até certo desejo de compreender melhor o que forma a essência de cada pessoa.

Com “Todo Dia” não foi diferente. Aqui Levithan não quis somente abordar mais um caso de amor adolescente, mas também ressaltar que o amor não escolhe gênero, idade ou qualquer outro tipo de definição que lhe possamos atribuir. Tal sentimento é avassalador demais para se encaixar em regras; tão avassalador quanto o fato de alguém acordar todos os dias em um corpo diferente, como acontece com “A”, personagem principal da trama.

“A” não tem sexo. Tem 16 anos e é um ser cujo destino é abrir os olhos a cada manhã em um novo quarto, em uma nova vida, que, esteja bem ou não, nos trilhos ou não, é a vida que “elx” terá de viver pelas próximas 24 horas. Isso o leva ao fardo de atravessar cada minuto com a responsabilidade de não arruinar a vida da pessoa na qual entrou, ou, pelo menos, não causar muitos estragos. O que acaba mudando quando “A” adentra o corpo de Justin.

Justin é só um garoto comum. Extremamente desorganizado e sem o mínimo de noção sobre o que é higiene e de como aplicá-la no próprio quarto, mas comum. Só que Justin tem algo que todos(as) os(as) outros(as) não tiveram até ali: ele namora Rhiannon. O primeiro contato com a garota faz “A” questionar inúmeras coisas que sentiu ao longo de sua existência, desde sua estranha infância até sua estranha forma de ser. Rhiannon o toca de tal maneira, que, mesmo depois de sair do corpo de Justin, “A” dá um jeito de continuar encontrando-a, contando com a sorte de acordar sempre no corpo de alguém que mora a poucos quilômetros dela. É extremamente bonita a forma como “elx” se esforça para sempre conseguir permanecer ao lado da garota, mesmo que a essa altura nem dê tanta importância ao corpo no qual está ou às consequências de seus atos.

Quando “A” entra em um corpo, acaba por se apossar das lembranças da pessoa, tornando o processo um pouco mais fácil. O ser não tem controle sobre em quem vai entrar; nem sequer sabe de onde veio ou como nasceu e que tipo de criatura é. “Elx” vivencia todos os tipos de vidas e situações, como a de uma garota que sofre de depressão. E é aí que o talento e a habilidade de Levithan mais uma vez se escancaram para o leitor: você quase se sente no corpo daquela garota que grita por socorro num pequeno e inocente diário; no corpo de um garoto americano em plena parada de Orgulho gay tentando salvar seu relacionamento; no de um transexual em busca de si mesmo etc. A lista é quase infinita.

Confesso que houve algo na história que me deixou com um pé atrás. Uma certa figura religiosa começa a caçar “A” desenfreadamente – o motivo você terá de ler para descobrir. O desenrolar dessa parte é estranha e desnecessária. Não interfere na qualidade da história, mas é desnecessária.

O livro foi lançado em 2012, e chegou ao Brasil pela Galera Record. Há uns dois anos foi lançada a tão aguardada sequência, intitulada de “Outro Dia”, na qual a história é contada sob o ponto de vista de Rhiannon.

Em suma, temos aqui uma obra muito bem feita e demasiadamente sincera. É algo original: tenho quase certeza de que você não chegou a ler nada parecido; e acredito que muitas pessoas, assim como eu, se viram em algumas das vidas em que “A” entrou e torceram para que “elx” conseguisse vencer todas as barreiras que o impediam de encontrar sua amada garota.

Tu é o cara, Levithan.

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