Publicado em 18 de nov de 2016 por Mayara Armstrong

Na era da problematização, chega a ser gritante o silêncio ao redor de um dos maiores clássicos do cinema infantil, que está voltando às telonas agora em 2017. Talvez seja um ponto cego devido à nostalgia – mas, de qualquer forma, é uma coisa importante de ressaltar. Então, desculpe pelo transtorno, mas preciso falar de A Bela e a Fera.

O clássico da Disney de 1991, que ano que vem ganhará uma versão live action, conta a história de um príncipe mimado que, após ser insensível e mal educado com uma feiticeira disfarçada de uma velha feiosa, foi amaldiçoado a viver como uma fera a menos que alguém fosse capaz de amá-lo naquela forma antes de seu aniversário de vinte e um anos. Alguns anos depois, um comerciante do vilarejo próximo se perde próximo a seu castelo e a fera acaba por aprisioná-lo, o que leva sua filha, Bela, a vir procurá-lo e se oferecer para ficar aprisionada em seu lugar. Eventualmente Bela acaba descobrindo que há mais na Fera do que sua aparência grotesca e se apaixonando por ele, o que quebra a maldição e faz com que o príncipe retorne ao normal.

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Escuta-se muito por aí que essa história é sobre olhar além das aparências, mas deixe-me dizer uma coisa: o problema da Fera nunca foi ter a aparência de um monstro. O que o condenou à maldição, pra começar, foi ser um garoto insensível e mal educado, o que ele nunca deixou de ser com o passar dos anos. Quem sequestra um velhinho por que ele se perdeu no seu quintal? E só o liberta se sua filha ficar presa em seu lugar? Mas meu problema aqui não é com a Fera.

A Bela é retratada como uma garota letrada e culta, que ama ler e despreza as opiniões antiquadas dos moradores de sua vila. Ela é curiosa e inventiva, interessada em entender as coisas ao invés de só aceitá-las como elas são. Ao contrário da maior parte das princesas que você via por aí na época, Bela não se adequa a estereótipos: ela é inteligente e independente e constantemente recusa e questiona os avanços machistas de Gastão, o bonitão do vilarejo. Uma princesa Disney que finalmente passa uma imagem feminina forte às garotas que a assistem.

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E tudo isso cai por terra quando consideramos que ela acaba o filme com um cara que tratou a ela e ao pai como propriedade. A partir desta perspetiva, a mensagem que A Bela e a Fera passa é: garotas, se vocês derem carinho o bastante, vocês conseguem consertar qualquer rapaz. Garotas: ele pode te maltratar, mas ele te ama. Garotas: ele não fez por mal, estava apenas passando por uma situação ruim, no fundo ele tem um bom coração. Toda força e independência de Bela deixam de ser importantes porque ela encontrou o verdadeiro amor e isso é tudo que uma garota precisa.

A verdade é essa: A Bela e a Fera é sobre um relacionamento abusivo. Se você quiser ir um pouco mais longe, é sobre uma garota sequestrada que acabou por desenvolver empatia e carinho por seu sequestrador – e o nome disso é Síndrome de Estocolmo. Não é bonito, não é saudável, e nós precisamos parar de falar que é romântico. O amor não supera tudo, e definitivamente não deveria superar um sequestro. O amor não precisa ser trágico para ser bonito e a cultura pop precisa parar de contar essa mentira às nossas meninas.

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